Família Trump e realeza dos Emirados controlam fatia relevante do banco por trás da stablecoin USD1

O Escritório do Controlador da Moeda dos EUA (OCC) concedeu uma aprovação condicional preliminar à World Liberty Financial para criar um national trust bank com carta federal, voltado à emissão, resgate e custódia da stablecoin lastreada em dólar USD1. A estrutura societária revelada nesta semana indica que o principal acionista do veículo controlador do banco, a WLTC Holdings, é o xeque Tahnoon bin Zayed Al Nahyan — assessor de Segurança Nacional dos Emirados Árabes Unidos e irmão do presidente do país — com 49% de participação por meio da StringZ Holding RSC. Entidades ligadas à família Trump detêm 38%. A USD1 soma atualmente cerca de US$ 4 bilhões em valor de mercado. Segundo a World Liberty, as reservas são aplicadas em Treasuries dos EUA e outros ativos equivalentes a caixa, com geração estimada de US$ 150 milhões por ano em receita de juros. Até aqui, a custódia das reservas e parte desse retorno ficavam com a parceira BitGo, uma trust company independente. Com um banco próprio, a empresa passa a buscar a internalização dessas funções e do rendimento. O aval preliminar reacendeu críticas sobre a presença de autoridades estrangeiras no capital de infraestrutura financeira norte-americana, especialmente porque a mesma participação de 49% já havia sido usada numa operação anterior. Em janeiro de 2025, quatro dias antes da posse de Donald Trump, Tahnoon e coinvestidores aplicaram US$ 500 milhões na World Liberty Financial via Aryam Investment 1, em troca de 49% da companhia. A transação não foi divulgada na época e só veio à tona posteriormente. Pela declaração financeira mais recente do presidente, US$ 263 milhões desse montante foram destinados a entidades associadas à família Trump. Pelo desenho regulatório, o trust bank não opera como um banco tradicional: licenças desse tipo tendem a não permitir captação de depósitos nem concessão de crédito. O foco é a guarda de ativos para clientes e a facilitação de liquidações de pagamento. No caso da World Liberty, a carta federal permitiria emitir a USD1 e manter diretamente os ativos em dólar que dão lastro ao token. A base legal citada para o projeto é o "Genius Act", assinado em julho de 2025. A lei abriu caminho para que emissores de stablecoins aprovados possam deter diretamente os ativos de reserva, reduzindo a dependência de terceiros. A World Liberty apresentou o pedido em janeiro deste ano e recebeu a aprovação condicional preliminar em 14 de agosto. O texto também determina que stablecoins atreladas ao dólar emitidas nos EUA só podem ser lastreadas por ativos específicos, incluindo Treasuries com vencimento em até 93 dias. Após a decisão do OCC, o CEO da World Liberty, Zach Witkoff, afirmou que a ambição é "construir o dólar digital mais confiável e mais usado do mundo". Ele é filho de Steve Witkoff, enviado dos EUA para o Oriente Médio. O OCC vem, nos últimos meses, analisando mais pedidos de cartas nacionais ligados ao setor cripto. Ripple e Circle também receberam aprovações preliminares. O atual controlador, Jonathan Gould, foi indicado por Trump no ano passado. Nem todos avançaram: no início de agosto, o OCC negou o pedido de carta nacional da fintech holandesa Bunq, citando preocupações relevantes de regulação e compliance. Em meados de agosto, a Zerohash — fornecedora de infraestrutura cripto para a E*Trade, do Morgan Stanley — teve seu pedido de trust bank devolvido por deficiências significativas; depois reapresentou uma proposta mais restrita, e a consulta pública vai até 17 de setembro. No caso da World Liberty, o OCC afirmou em carta que a aprovação condicional preliminar se baseia em uma avaliação abrangente das informações disponíveis, incluindo representações e compromissos assumidos na solicitação e por representantes do banco. A aprovação final depende do cumprimento de exigências pré-abertura e de revisão final. A empresa disse que servidores de carreira do OCC avaliaram se o pedido atendia a requisitos legais, regulatórios e de política pública. A World Liberty não comentou a composição acionária do banco. Um funcionário do OCC declarou que o processo é conduzido por servidores de carreira e que a agência consultou especialistas em ética governamental para assegurar aderência a padrões e políticas. Outros aportes também elevaram o nível de controvérsia. No início do mês, o The New York Times noticiou que o empresário Guren "Bobby" Zhou investiu US$ 100 milhões por meio de uma nova empresa chamada Aqua 1, tornando-se um dos maiores compradores de tokens ligados ao projeto. Segundo a reportagem, dois anos antes ele era um varejista de pisos de madeira no Reino Unido, com histórico de investigação local por lavagem de dinheiro, e esteve ligado ao colapso de uma pequena startup cripto. Pela política da World Liberty, até US$ 75 milhões desse valor teriam sido direcionados a uma empresa controlada pelo presidente e seus três filhos, com benefício também à família Witkoff. Em 19 de julho, dia da final da Copa do Mundo, Zhou apareceu em um camarote de luxo em um estádio de Nova Jersey ao lado de Zach Witkoff. O banco ainda não iniciou operações. A World Liberty precisa cumprir as condições impostas pelo OCC e passar pela inspeção final. Se o projeto for adiante, uma instituição cujo controle econômico combina 49% nas mãos de um alto integrante do governo dos Emirados e 38% de entidades ligadas à família do presidente dos EUA ficará responsável por custodiar integralmente as reservas de uma stablecoin em dólar, aplicá-las em Treasuries e reter o total dos juros gerados. Fonte: The Wall Street Journal / The New York Times